4.6.10

.meados de junho

Data: 02/06/10
Hora Local (Nassau - Bahamas): 13h49
Hora do Brasil: 04h49

Alguém sabe definir o que são meados? Eu só sei que eu perdi o fio da meada dos acontecimentos. Tanta, mas tanta coisa, que nem dá vontade de contar. Ainda se fossem coisas boas, era legal, mas nem foi. O aniversário foi uma porcaria. A festa do Spectrum é um dia pra esquecer. As pessoas que um dia você ama, no outro você odeia com uma facilidade incrível. Essa vida de navio é um mundo à parte. Na terra firme as coisas não acontecem como acontecem aqui. Meados de junho, meados de 2010, e eu cheguei nesse navio ano passado. Meudeus, parece que foi ontem.

Deixa eu tentar lembrar das coisas boas: tô com video-game na cabine e meu projetor velho de guerra, então que a galera já paga pau pra vir jogar aqui na tela grande. E eu já tô viciado em Guitar Hero e tenho gastado meu tempo livre nele (que agora tem sido mais livre do que nunca), e também assistindo o que me falta de Friends. Assisti a temporada 7 em 4 dias, credo! E pelos meus cálculos, vou terminar de ver tudo antes de ir embora. Isso significa que vou ter visto em 4 meses o que o mundo inteiro levou 10 anos pra assistir. (tá, eu sei que não sou o único no mundo a assistir as temporadas em sequência, mas deixa eu exagerar). E fazendo mais cálculos, quer dizer que eu gastei 104 horas vendo a cara dos Friends, tipo mais de 4 dias da minha existência gastos com isso. Credo! Outra coisa bacana foi ter ido, finalmente, à Cable Beach com o pessoal. Coisa linda! Na verdade, lindo é o Resort que a gente fica, usando ‘de grátis’ tudo que essa gente rica paga fortunas pra desfrutar. Ser marinheiro tem as suas vantagens. A parte ruim foi minha estupidez ao quebrar o nariz no fundo da piscina. Ok, não quebrou, mas ralou bonito e agora eu desfilo com um lindo band-aid na cara. Quando me perguntam o que aconteceu, eu digo que briguei na rua. Pra esse povo sensacionalista, essa é uma ótima estória pra se espalhar por aí. E depois da minha briga com meio mundo na semana passada, é fácil demais desse povo acreditar que minha estória da briga na rua é verdade. Como concluiu o Keu: “agora você é o cara mau do navio”.

Ontem fui almoçar num restaurante Thai com a Natalie (cantora, namorada do Ricardo) e Adam (trumpetista), depois chegaram Andy (cantor) e Maggie (youth staff). Americanos e canadenses, e eu perdido lá no meio. Mas são gente boa demais e me senti super bem na companhia deles. A Natalie é incrivelmente gente fina, pagou meu almoço como presente de aniversário (tá certo que eu paguei o almoço dela no restaurante argentino outro dia, na despedida do Ricardo, sem motivo nenhum, só porque eu também sou incrivelmente gente fina). A Paula me deu uns bottons do Forrest Gump, que eu ia comprar mesmo, mas ela pagou pra mim como presente de aniverário também. E isso foi tudo que eu ganhei por ficar mais velho. Quer dizer, teve coisa melhor e a festa do Spectrum não foi de todo ruim: brigas à parte, era supostamente minha festa de aniversário. Então que muita gente me deu os parabéns, e as 5 meninas mais queridas e lindas do navio me beijaram na boca. Uaaau! Tá, foi só selinho de parabéns como amigo, tipo como as meninas costumam fazer com seus amigos gays. Hahaha mas ok, não sou gay, tá? A Érica (dançarina), Mel (dançarina), Gillian (youth staff), Paula e Thays (brasileiras) sabem BEM disso, e foram elas que fizeram a única coisa boa da noite acontecer comigo, e eu não precisei nem pedir. Se a australiana fosse gente boa igual elas, minha noite teria sido ótima como eu planejava que fosse.

Falando em restaurante, tenho gastado demais com comida. Cada dia a gente come num lugar diferente. É restaurante thai, argentino, brasileiro, chinês, grego, italiano, hard rock, johnny rocket’s... mas a comida é boa, ruim é o preço. Só que também têm sido a única refeição do dia pra mim, porque a comida do navio já não me serve mais. Eu como pão na crew mess, e isso é tudo que eu como aqui.

Não sei o que mais tem pra contar, só sei que muita coisa acontece, mas ao mesmo tempo nada acontece. Complicado? Eu sei. O trabalho está sendo cansativo, mas no sentido de que é sempre igual. Dizer que eu faço de olho fechado não posso, porque eu dependo do olho pra trabalhar, mas se eu falar que faço o trabalho sem as lentes de contato, quase cego, vai ser verdade. As lentes venceram, não funcionam mais. Os óculos estão quebrados. Ninguém me vende novas lentes sem prescrição médica e eu não tô afim de pagar um oftalmo aqui pra me dar a porra de um papel que eu já sei o que vai estar escrito. Então vou esperar chegar no Brasil onde se dá jeitinho pra tudo e comprar lentes novas lá (aí, no caso). E eu ando agoniado, querendo ir embora logo, respirar novos ares (quem sabe Buenos Aires?), ver coisa diferente e pessoas que eu gosto. Quero saber também qual será meu próximo navio, pra poder fazer planos e dormir pensando nos próximos roteiros. Enfim, sei lá. Só 20 dias pra chegar em casa.

Me convidaram pra ser room mate em NY. Quem sabe, né? NYFA me espera.

Time to go.

Ciao!